Texto original: Ben Reason / Tradução e prefácio: Luis Alt

Prefácio à tradução

(Leia se quiser entender porque esse texto é tão relevante…)

Minha paixão com Design de Serviço foi imediata. Em 2008, durante meu mestrado em Gestão de Design em Barcelona, tive um workshop sobre a disciplina. Foram apenas 2 dias mas achei ali algo que poderia potencializar minha formação como engenheiro de produção e designer industrial.

No mesmo ano, por coincidência, aconteceu o primeiro congresso da história da disciplina, organizado pela Service Design Network. Não pensei duas vezes e fui lá com o objetivo de entender melhor esse mundo. Me apaixonei pela ideia de usar Design para pensar em como as organizações podem melhor se estruturar para fornecer bons e significativos serviços.

Voltei impressionado com uma consultoria chamada Livework. Apesar de consultorias consagradas de outras áreas estarem presentes, como a IDEO, nenhuma foi capaz de demonstrar tanto conhecimento de causa e estudos de caso de impacto quanto a pioneira consultoria inglesa (naquela época com 7 anos de estrada). Voltei decidido a enviar meu currículo para tentar um estágio lá. Crise global bateu, oportunidades acabaram e decidir voltar para o Brasil para abrir a primeira consultoria de Design de Serviço do país. Um ano depois, consegui convencer a Livework a instalar uma operação no Brasil e, com isso, virei sócio da empresa que tanto admirava.

Em minha primeira visita à Livework de Londres, me chamou muito a atenção um livro: Capitalismo Natural. A mensagem, muito simples: precisamos adicionar os recursos naturais na conta do capitalismo em vez de assumir que eles são dados. Naquela época, dez anos atrás, minha admiração era pelo Design de Serviço, mas me chamava muito a atenção a maneira como sustentabilidade já aparecia na explicação do que fazíamos. Nossa ideia é que, ao olhar para negócios como serviços, recursos poderiam ser eventualmente mais bem aproveitados. Uma máquina de lavar roupa, por exemplo, é mais bem utilizada e otimizada numa lavanderia do que num apartamento onde seu acesso é restrito e seu uso baixo. Apesar de saber que esse aspecto sempre foi importante em nossa consultoria, nunca conseguimos dar um passo claro e trazer de forma estruturada em nossos projetos esse tipo de olhar.

Tenho me visto recentemente contemplando, mais uma vez, a Livework como instituição. Assim como 20 anos atrás fomos capazes de perceber o potencial do design e dos serviços, acredito que estamos diante de uma revolução fundacional em nossa empresa. Queremos pensar em estratégias que ajudem a viabilizar futuros sustentáveis. Ajudar organizações a darem passos necessários neste novo contexto global. O texto abaixo, escrito pelo nosso fundador e pessoa responsável por liderar essa transformação, explica um pouco melhor esse caminho que estamos começando a percorrer…Com a palavra, Ben Reason

Design no antropoceno

Este artigo é a articulação de uma jornada pessoal. Ao longo dos anos, mas com maior senso de urgência recentemente, tenho tentado entender como reagir a fatos ecológicos que estão se tornando cada vez mais presentes. Especificamente, é uma tentativa de encontrar um objetivo para mim e para minha prática de design, sabendo que muitas das coisas que consideramos verdadeiras não são mais tão verdadeiras assim.

Design

Estou envolvido na aplicação do design em relação a serviços – e no desenvolvimento do design de serviço como prática – há mais de 20 anos. Desenvolver esse campo – tanto metodologicamente quanto administrando uma consultoria – tem exigido compreender as qualidades que tornam essa prática valiosa. Quero explicar brevemente essas qualidades antes de questionar seu valor e o valor do design. Na minha empresa, a Livework, entendemos o valor do design em cinco qualidades-chave:

Centrado nos seres humanos

Design enfatiza as necessidades e experiências dos seres humanos; sejam eles clientes, funcionários, pacientes ou líderes de negócios. Esse entendimento e engajamento com as pessoas visa informar decisões e pensar em conceitos que ajudem empresas, governo e indivíduos a ter melhores resultados.

Cocriativo

O design que pratico reconhece que a mudança e a entrega de serviços demandam criatividade, engajamento, contribuição e ação de uma ampla gama de pessoas: gerentes, equipes e usuários dos serviços. O processo de design para entender os desafios, imaginar futuros e projetar soluções é melhor quando realizado em conjunto com essas pessoas. “Faça com, não para” é um refrão comum.

Reformulação

Design é um ato criativo e capaz de desbloquear soluções em contextos onde abordagens mais analíticas falham. Isso é feito reformulando os desafios e aproximando-os de uma grande variedade de perspectivas. Se resume ao uso contínuo da pergunta: “e se?”.

Contextual

Designers não são únicos nesse aspecto, mas o Design de Serviço se preocupa muito em entender o foco do trabalho em um contexto mais amplo. Tentamos adotar uma visão holística para informar necessidades bem específicas e criar soluções mais relevantes.

Experimental

Design é sobre criar e testar. É sobre provar valor e viabilidade fazendo, não apenas modelando. Muitas organizações lutam para fazer isso. Nós trazemos a habilidade e a liberdade para experimentar de maneira que possamos aprender e reduzir riscos.

É desse tipo de design que estou falando.

Antropoceno

Abordarei isso ainda mais brevemente, pois não sou o especialista aqui. Antropoceno é o nome dado ao argumento de que a humanidade teve tanto impacto no planeta que poderia ser considerada uma nova época geológica. As épocas são geralmente medidas em milhares de anos. A época atual (ou anterior) foi o Holoceno, que durou 11.500 anos.

Vários fatores contribuem para a evidência de que esse é o caso. Aqui estão três que mostram o alcance e a duração desses impactos:

  1.  Alteramos a composição de carbono da atmosfera de 280 para mais de 400 partes por milhão, aquecendo o clima em 1°c (e aumentando)
  2. Dobramos a quantidade de nitrogênio em nossos solos por meio de fertilizantes. Este é o maior impacto no ciclo do nitrogênio nos últimos 2,5 bilhões de anos
  3. Plásticos são tão impregnantes que entrarão nos registros fósseis de nossos tempos e permanecerão visíveis por muitas gerações futuras

Não estou tentando ser cientificamente preciso em minha definição, mas comunicar o ponto de que muitos aspectos da atividade humana estão em tal escala que o impacto é global e mais a longo prazo do que estamos acostumados a pensar.

A razão pela qual estou usando o Antropoceno como termo, e não outros como crise climática ou ecológica, é que quero deixar de pensar que há algo que precisamos resolver para algo a que precisamos nos adaptar. Precisamos nos adaptar à ideia de que somos tão poderosos que tudo o que fazemos, em escala, tem um impacto potencial de longo prazo nos sistemas ecológicos. Portanto, precisamos nos adaptar à idéia expressa por Bruno Latour de que não “estamos na terra” mas “somos da terra”.

O design no Antropoceno

Nesse contexto, o design deve ser visto como um subconjunto de toda atividade humana. Quer pensemos que estamos melhorando os cuidados de saúde ou ajudando a vender mais seguros, fazemos parte de um sistema humano que está mudando a dinâmica do planeta e vai perturbar gravemente a vida na Terra.

Mais especificamente, o design é utilizado em grande parte para aprimorar essas atividades humanas. Utilizamos nossas habilidades para otimizar o desempenho do sistema humano. Nós o aprimoramos ao tornar as atividades humanas mais desejáveis, viáveis ​​e rentáveis, de acordo com o foco do nosso projeto.

Portanto, embora o design muitas vezes mantenha uma posição ética como um catalisador do bem para os seres humanos – atendendo às nossas necessidades e melhorando a experiência -, precisamos reconhecer que essa intenção se transformou em um propulsor de consumo, permitindo-nos fazer mais e ser mais eficaz como espécie em detrimento do sistema da vida na terra.

Então, temos que perguntar: como o design deve evoluir após servir à era industrial? Eu quero explorar se as coisas que eu amo sobre design (sua humanidade, colaboração, reformulação criativa, consciência contextual e experimentação) podem ser sintonizadas para a nova época? Para fazer isso, vou me apoiar fortemente em vários pensadores que me ajudaram em minha jornada.

Mais do que centrado nas pessoas

Há muitos argumentos sobre o que levou a humanidade a um lugar onde estamos causando danos ao habitat que precisamos para a vida. O filósofo Tim Morton define dramaticamente algo que ele chama de ‘The Severing’. Ele usou esse termo para enfatizar o quão severamente nos separamos de outras vidas e matérias. Fizemos isso de tal maneira que somos capazes de fazer coisas para o mundo como se ele estivesse separado de nós mesmos.

Morton usa o exemplo da microbiota em nossos próprios corpos para explorar como não estamos separados de outras vidas, mas também como somos mais do que pensamos que somos. Ele pretende desenvolver uma linguagem que vá além desse rompimento (“The Severing”), usando termos como ‘solidariedade com pessoas não humanas’ e a ideia de que nosso mundo está terminando enquanto precisamos nos dar conta de que negamos o mundo de outros seres.

Morton é sério e brincalhão ao mesmo tempo. Ele pretende nos chocar com nossas suposições e delineamentos. Ele confunde as distinções entre assuntos humanos e assuntos de pessoas não humanas; outras espécies ou talvez um rio, uma formação rochosa ou seu próprio microbioma. Morton sugere que nos unamos em solidariedade a não-humanos. Ele define a opressão sistemática dos animais de criação como uma forma de racismo. Ele acredita que enfrentar o racismo entre os seres humanos é um passo para o tipo de empatia que precisamos por não-humanos.

O design, no seu melhor, visa desfocar os limites que criamos nos assuntos humanos. Trazemos as experiências das pessoas para as salas de conselho de corporações e governos para ajudá-los a ter empatia com aqueles que enfrentam os aspectos desumanos de muitos serviços. Isso, por si só, pode ser uma luta, pois vai contra a corrente. Mas é poderoso e pode ajudar a desenvolver uma compreensão de como um maior alinhamento dos interesses de pessoas e organizações pode levar a resultados mutuamente melhores.

Baseando-me em Morton, imagino que o design traga ‘pessoas não humanas’ para o escopo empático da atividade de design. Como criamos conexões empáticas com outros seres, rios e o clima? Especialmente quando há muito trabalho a ser feito no nível humano. Morton sugere que comecemos melhor nas ‘coisas humanas’ – entender aqueles que não tem suas necessidades atendidas e trabalhar nossos músculos da empatia. Talvez possamos expandir de indivíduos para o coletivo a fim de considerar as necessidades gerais das comunidades. Acho que descobriremos que essas necessidades estão entrelaçadas com as dos ecossistemas, dos quais todos fazemos parte.

Extremamente colaborativo

O fato do Antropoceno desafia a idéia de sustentabilidade. Causamos um impacto, as coisas vão mudar e vão seguir mudando. Não podemos mais simplesmente sustentar o que tivemos. Devemos assumir um papel mais ativo. Palavras mais recentes como como generativa, regenerativa e restauradora surgiram nos escritos de pessoas como Daniel Christian Wahl.

Wahl desafia o design a se redesenhar. Ele vê a necessidade de que o design seja feito por todos como uma resposta à realidade de que nossas vidas se transformarão ou serão transformadas. Eu vejo isso como algo que muitos pensadores ambientais estão discutindo agora, que a escolha agora é entre fazer a transição ativa de nossas economias e estilos de vida ou, então, ter a mudança imposta a nós por meio de colapsos em nossos sistemas de suporte à vida.

O design tem tido o papel de ser o representante ou a voz do cliente, usuário, quem quer que seja. Interpretar as necessidades e desejos das pessoas em especificações de novas ofertas. Estamos aprendendo como isso pode ser feito de maneira mais eficaz em colaboração com as pessoas. Sinto que estamos apenas começando a explorar isso e que o design precisará se tornar parte do conjunto de capacidades da maioria das pessoas para ajudá-las a se adaptar e prosperar. Talvez aqueles de nós com alguma experiência possam ser úteis aqui.

Imagino que, com um futuro menos estável, as pessoas precisarão encontrar maneiras de colaborar para substituir os modelos atuais mais individualistas e competitivos. Precisaremos nos unir para desenvolver maneiras de mitigar o pior e adaptar-nos às mudanças. As empresas precisarão fazer parceria com concorrentes, fornecedores e clientes para decidir como se adaptar, juntas.

Reformulando a prosperidade

Chegamos à pedra angular do desafio. Anteriormente, argumentei que o design geralmente trabalhava na reformulação no contexto dos assuntos humanos e na otimização das coisas de acordo com nossas necessidades e desejos. Em geral, isso ocorreu no contexto de promover a prosperidade humana – em uma infinidade de sabores.

Há um intenso debate em torno do conceito de crescimento verde e a possibilidade de separar o conceito de crescimento de emissões e danos ecológicos. O economista Tim Jackson demonstra a falácia do crescimento em um planeta finito mas, ainda mais importante, procura alterar o discurso a uma visão diferente de prosperidade. Ele demonstra quantas coisas que valorizamos muito – cuidado, educação, lazer e amor – têm pouco valor econômico no sistema atual.

O que eu tiro de Jackson é a idéia de perguntar: “e se aumentarmos o tempo para cuidar e reduzirmos a necessidade de coisas?” Assim temos o início de cenários alternativos para que possamos trabalhar. Acredito que é aqui que o design pode desempenhar um importante papel. Podemos trabalhar para preencher o vazio criado pelas limitações do nosso modo de vida atual com alternativas ricas e inspiradoras. Para que o design seja relevante no Antropoceno, ele deve ajudar a reformular o que consideramos valioso e caro para nós, e como desbloquear esse valor, sem prejudicar o ecossistema do qual esse valor faz parte. Temos que reformular a ideia de prosperidade.

Ecologicamente contextual

No nível macro, o contexto em que viveremos é o Antropoceno. Quando geralmente falamos sobre contexto, consideramos os ‘atores’ e ‘fatores’ que influenciam as escolhas. O eticista Clive Hamilton explora as escolhas que temos para reagir ao Antropoceno. Em sua análise, o fator principal será como o planeta irá mudar em resposta às atividades humanas. Esta é a “Terra Desafiadora” de seu título. O ator chave de Hamilton é a humanidade. Das quatro opções que ele vê à nossa frente, três delas – negação do impacto humano, recuo para modos de vida pré-industriais, tecno-futurismo (fuga para Marte etc.) – ele argumenta que seriam erradas e ineficazes. Hamilton defende que a opção que nos resta é enfrentar o poder despertado na Terra através de nossas ações e o poder que, portanto, possuímos como seres humanos.

Enquanto Morton e Latour defendem que nossa consciência deveria ser “da Terra”, Hamilton argumenta que precisamos apoderar-nos desse nosso poder e começar a agir assumindo a responsabilidade que esse poder nos concede.

A humanidade tomará grandes decisões em escala coletiva e individual nas próximas décadas. Nossos governos e corporações precisam tomar essa decisão com plena consciência desse poder, assim como todos nós, como indivíduos ou grupos o faremos.

Designers precisarão encontrar maneiras de levar o reconhecimento de uma terra desestabilizada e de uma humanidade imensamente poderosa às maneiras pelas quais exploramos desafios e criamos futuros. Estou explorando como podemos usar ferramentas de dilema para garantir que esses fatores sejam considerados. Como negociamos um caminho entre a espada do Antropoceno e a parede do poder humano em nossas decisões? Podemos ser criativos na maneira de navegar esse dilema?

Sempre experimental

Como você se move rumo ao futuro quando não sabe exatamente o que esperar? Como fazer isso quando é provável que estaremos sujeitos a choques significativos enquanto precisaremos também estar cientes do poder que possuímos? A única resposta é tentativa e erro.

Nassim Nicholas Talleb argumenta que nossos sistemas fixos, complexos e super confiantes nos deixaram frágeis a choques e pouco capazes de gerenciar riscos. Ele se baseia na história, natureza e empreendedorismo para mostrar como os sistemas alternativos prosperam ao acaso. Importante é o sistema que prospera, não as pessoas, seres ou negócios individualmente. Talleb é implacável.

Em um ciclo natural, quando uma floresta queima, ela permite uma reconfiguração, um reinício. Para que a composição da floresta se adapte a qualquer mudança no clima, solo etc. e volte a crescer da melhor forma por meio de tentativa e erro a cada reinício. As experiências bem-sucedidas terminarão por definir a nova floresta.

O design tem essa atitude em sua corrente sanguínea. Ocupamos uma posição marginal quando a lógica industrial dominante é consertar e escalar. Quando chegar a hora em que precisaremos estar na versão beta perpétua, procurando insights e dados que nos guiarão à mudança de curso ou pivot, precisamos estar prontos.

Conclusão

Gostaria de dizer que, tendo percorrido essa jornada, através do intelecto superior de minhas referências, posso concluir que o design vai nos ajudar a fazer a transição para o Antropoceno de maneira mais tranqüila do que caso ele não existisse. No entanto, a verdade é que esse é o esboço de uma hipótese que precisa ser refutada ou, espero, trabalharei nisso pelo resto dos meus dias.

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