Usar o design para remodelar nosso próprio processo de design é algo recorrente aqui na Livework e deveria ser em toda empresa que busca se renovar constantemente. É nesse contexto que entendemos a importância do Metadesign como um campo de estudos que analisa como os resultados podem emergir de diferentes processos e escopos de projeto.

Com uma trajetória acadêmica que atravessou desde o universo tecnológico até o universo antropológico, Caio Vassão tem uma atuação intensa no mercado como consultor e facilitador de projetos a partir da ótica do Metadesign, além de ser uma das maiores referências no estudo e na aplicação da abordagem. Nesse artigo, trazemos para vocês o bate papo que tivemos com ele sobre Metadesign e a teoria da complexidade.

Livework: Nos fale um pouco sobre a sua trajetória profissional.

Caio: Profissionalmente, sou arquiteto e urbanista. Trabalhei com o que você possa imaginar nessas áreas, desde loteamento até projetos de escola, casas e plano urbano. E gradualmente, a partir da minha pesquisa de mestrado e doutorado, fui me aproximando de um universo que me conduziu para o Metadesign. Aos poucos fui percebendo que, enquanto meus colegas arquitetos eram muito preocupados em como construir o prédio, como construir a cidade, eu estava mais preocupado em porque construir. Para quê fazer o prédio? Para quê fazer a cidade? A partir de uma idéia que é a própria comunidade. Ou seja, quem habita a cidade, quem habita o prédio. Isso foi me incomodando cada vez mais, chamando mais a minha atenção. Atualmente, sou basicamente um acadêmico que tem uma atuação intensa no mercado, como consultor e facilitador. Busco facilitar processos. A minha pesquisa é o que eu aplico no mercado, não tem muita distinção.

L: Como se desenhou sua trajetória conceitual? Quais foram os questionamentos que te levaram ao Metadesign?

C: A trajetória conceitual é um pouco mais complexa, mas tem a ver com estar envolvido desde cedo com a computação. Eu sou da geração que cresceu no computador, primeira geração que tinha computador em casa, na década de 80. Eu tinha dois irmãos que também se interessavam por isso. A gente se ensinou mutuamente, aprendendo um com o outro a programar e a mexer no computador. E a estética do computador já me interessava naquela época, mais do que usos práticos. Me interessava entender o que dava para fazer enquanto arte no computador: computação gráfica, música etc. Eu e meus irmãos nos complementávamos nesse interesse. Hoje, um é músico e o outro trabalha com cinema. À medida que eu fui entrando no mundo das artes visuais, design, ilustração, arquitetura e urbanismo, esse universo que aparece aos olhos e nem tanto à audição e aos outros sentidos, fui sofisticando o universo conceitual que eu estava envolvido. Cheguei a ser ilustrador por um bom tempo e já fiz mais de três mil ilustrações, para você ter uma ideia.

Então houve um momento que eu comecei a questionar a própria natureza do espaço que a gente vivia. Olhava à volta, achava um absurdo, uma coisa constrangedora o espaço urbano. Ele é opressivo. Olho e não vejo sentido nenhum no jeito que é feita a cidade. No entanto, ela oferece uma série de coisas muito ricas e interessantes, então hoje em dia, eu ainda vivo na cidade. Nesta época de questionamento, decidi pegar o acervo de talentos e começar a articular uma outra forma urbana e meu trabalho de graduação se baseou nisso. Foi quando descobri uma série de coisas na minha própria proposta do que seria a cidade que acabaram virando toda a minha pesquisa acadêmica, toda a minha atuação.

L: Em poucas palavras, o que é Metadesign?

C: Metadesign tem “n” definições diferentes. É um pouco difícil falar apenas uma, mas acho que o mais geral é: o design do contexto em que acontece o design, projetar o contexto de onde acontece o projeto. Então você se afasta um pouco do produto final que quer gerar e pondera sobre o caminho para gerar aquele produto. O nome disso, é claro que vocês conhecem, chama-se método. Então, segundo a definição, metadesign é a técnica de criar métodos, uma abordagem para criar métodos. Em si não é um método, mas um olhar sobre o processo metodológico. Essa é uma definição.

Outra definição é o projeto de coisas que se movem, que estão em movimento, e não de coisas estáticas. Então, nos preocupamos mais com o projeto de processos do que com projeto de objetos. Uma terceira definição é o projeto de si mesmo, ou seja, onde estou no mundo, meu alcance, o que dá pra eu fazer a partir da minha posição, a posição que eu ocupo no mundo. Ter consciência de si mesmo, consciência do contexto que você está e de quais ações estão ao seu alcance. Isso se estende ao conjunto social que você está. Então, qual conjunto social estou? Qual é o alcance desse conjunto social? É uma empresa? Uma comunidade? Uma família? É uma instituição? É uma organização pública? Lucrativa? Não lucrativa? E por aí vai. Projetar esse contexto é metadesign.

L: Quais são suas influências?

C: Tem uma linhagem que são os arquitetos que tentaram mudar a relação com o ambiente, sendo o mais importante de todos, Buckminster Fuller. Ele é o cara da geodésica que começou a questionar a sustentabilidade na década de 30. E ele propõe a magiometria do pensamento, que foi influenciar muito o uso que eu faço da antropologia e que aparece a todo momento em metadesign. As principais ferramentas do metadesign são a antropologia, diagramas, e isso tem influência direta do Buckminster Fuller. Ele mesmo acho que usava errado o termo geometria. Acho que ele queria dizer antropologia quando falava de geometria. Mas tudo bem, faz parte… os insights são interessantes. Isso na própria arquitetura, né? Já em outras áreas, minha linhagem mais importante são os antropólogos de origem francesa, os estruturalistas: Levis Strauss, Pierre Clastres e a influência que eles tiveram em outros autores, como Deleuze, Bruno Latour, Pierre Levi, que é basicamente um popularizador do Deleuze, e certamente, o Viveiros de Castro, que é um antropólogo brasileiro.

L: Qual a relação da teoria da complexidade com metadesign?

C: O metadesign permite construir de maneira eficaz e consequente complexidade. Ou seja, complexidade não é uma coisa que a gente herda ou recebe. O metadesign permite agir sobre a complexidade. Ele é consequente, não só sobre ver a complexidade, mas em agir intencionalmente na complexidade. Isso é um aspecto. O segundo aspecto é que o metadesign ajuda a mapear a complexidade. Ou seja, vamos tornar visível e compreensível a complexidade. Isso ajuda a tecer as relações que estão no ambiente e, ao mesmo tempo, estão na nossa consciência, na nossa cognição. Então, essa construção — melhor se for colaborativa — da própria complexidade, conseguimos agir nela. Construir já é agir sobre ela. Isso até volta para uma definição de metadesign que é perceber que toda ação é criativa. Não existe ação de contemplação, não existe. Você já está agindo no mundo só por estar presente.

L: Metadesign e Teoria da Complexidade. Como isso é aplicado no dia a dia dos projetos? Por que é interessante os profissionais terem conhecimento dessas abordagens?

C: Eles permitem resultados mais eficazes, mais eficientes e que você faça mais coisas com menos esforço. Você vai trabalhar menos — isso é fato — por incrível que pareça, para realizar mais. Esse é o grau um. O grau dois é que você consegue agir de maneira mais ética. Ética não no sentido de correto, de moral, mas ética no sentido de você se colocar de maneira mais intencional no processo, mais presente. Você interfere com intenção. É muito comum o designer entrar em uma posição fragilizada frente aos projetos. Ele meio que recebe uma demanda, está no turbilhão do dia a dia, e ele atende aquilo. Quando acaba, está feito. O metadesign te convida a dar um passo atrás e observar onde você — o “eu” — está, o que quer, entender no que isso contribui para você, como isso contribui para a sua empresa, para a organização na qual está, para a comunidade a qual você se dedica. E nessa posição de observação, de meta observação, você é capaz de agir de maneira mais eficaz. Essa é uma dimensão.

Tem uma outra dimensão que é: todo projeto é complexo, se assim você encara ele. E se o projeto não te parecer complexo, tem algo errado. Você não está vendo alguma coisa e se prepara que você vai levar uma rasteira de algum lado. Por exemplo, projetar um logo para uma empresa: ah, não é complexo! Mas não é verdade. Um logo pode ser, talvez, a síntese absurda de uma única imagem, um pequeno emblema, um pequeno símbolo onde você está sintetizando um universo de significados. E aí um designer competente pode usar o metadesign para gerar um objeto de extrema síntese. O logo pode ser um círculo, mas aquele círculo é a síntese da posição daquela empresa frente à sociedade. Todo objeto, todo processo está inserido em um sistema maior. Sempre. Então, para mapear a complexidade, me questiono em que contexto aquele objeto está. Com o metadesign, você está sempre mapeando esse contexto.

Quer saber mais sobre esse assunto? Caio Vassão estará facilitando um curso sobre Metadesign na Livework Academy. Mais informações aqui.